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A comunicação entre o cão e o ser humano

Carine Savalli; Maria Mascarenhas Brandão; César Ades

Estima-se que há aproximadamente 15.000 anos começou uma história de cooperação, amizade e lealdade entre duas espécies, o homem (Homo sapiens sapiens) e o cão (Canis lupus familiaris). Entre as várias espécies de canídeos candidatos ao ancestral do cão (lobo, coyote e chacal), o lobo (Canis lupus) é o que possui maior semelhança genética de acordo com estudos recentes[1]. Evidências arqueológicas mostram que o lobo e o homem compartilharam mesmo habitat e mesmas presas por mais de 500.000 anos, mas que há aproximadamente 15.000 anos o lobo deixou de ser concorrente e passou a ser um colaborador. O primeiro registro arqueológico que comprova uma relação afetiva entre homem e cão foi encontrado em Israel, e datado de 12.000 anos[2]. Trata-se de um esqueleto humano com a mão apoiada no esqueleto de um filhote de cão ou lobo. Acreditava-se até pouco tempo atrás que tudo havia começado com a necessidade que as populações humanas tinham de se defender dos lobos, eliminando os animais adultos que rondavam suas habitações, deixando assim os filhotes entregues à sua própria sorte; enquanto os homens saiam para a caça, as mulheres cuidavam dos seus filhos e desses filhotes de lobos, terminando por assim à domestica-los[3]. Essa hipótese não é mais aceita, prevalece atualmente a hipótese proposta pelo biólogo Raymound Coppinger[4]  que sugere que nesse mesmo período quando se formaram os primeiros assentamentos, formaram-se também, como consequência, um novo nicho ecológico muito atrativo para os lobos, o lixo produzido por esses assentamentos. Segundo a hipótese de Coppinger, os lobos mais mansos aproveitaram-se dessa oportunidade de alimento fácil e aproximaram-se desse nicho, e, consequentemente, do homem, que aos poucos ganhou a confiança desses animais. A partir daí a seleção natural fez o seu papel separando as duas espécies, o lobo atual, aquele que permaneceu distante do homem, e o cão, aquele que se aproximou e aceitou o convívio e interação com o ser humano.
Sem dúvida o homem reforçou e ampliou a diferença por meio da reprodução seletiva: mais de 400 raças foram obtidas nos últimos 200 a 400 anos a partir de cruzamentos que procuraram ressaltar características de interesse[1]. São muitas raças, de tamanhos, formas e temperamentos variados, cães de trabalho, guarda, pastoreio, companhia e muitas outras funções. Essa transformação do ancestral lobo no cão atual não parece ter sido longa e lenta como se espera de um processo de evolução. Um experimento conduzido na década de 1950 do geneticista russo Dmitry Belyaev[5,6] é uma evidência disso. Nesse estudo raposas – espécie do gênero Canis – foram selecionadas para cruzamentos artificiais somente com base nas características tolerância à aproximação do ser humano e mansidão. Após 40 gerações as transformações no temperamento foram notáveis, as raposas domesticadas apresentaram muitos traços semelhantes aos dos cães, passaram a latir mesmo quando adultas, balançar a cauda, lamber as mãos dos humanos, e estavam sempre dispostas a brincar e interagir com eles. As mudanças comportamentais foram acompanhadas por mudanças morfológicas, o padrão da pelagem mudou, as orelhas ficaram mais caídas e a cauda mais curva. Também foram observadas diminuições nos níveis de serotonina e cortisol, o que explica o temperamento mais pacífico das raposas domesticadas. Esse experimento confirma que a transformação do ancestral lobo no cão atual pode ter sido rápida, baseada em características comportamentais, e pode ter desencadeado uma série de outras mudanças. Para que a relação entre o homem e o cão obtivesse o sucesso alcançado nos dias de hoje, o cão desenvolveu durante o período da domesticação a capacidade de se comunicar com o ser humano. Desde o início essa comunicação trouxe vantagens adaptativas para ambos, o ser humano ganhou um importante aliado com habilidades que o auxiliavam na caça e defesa do território e o cão recebia em troca comida e abrigo. Atualmente, essa dependência do cão se acentuou de tal maneira que podemos dizer que ele tem real necessidade de se comunicar com o ser humano, que é seu provedor de alimento, proteção e cuidados. O papel do ser humano como mediador e realizador dos desejos e necessidades básicas do cão traz motivação mais do que suficiente para que ele se comunique. 
Uma característica importante da comunicação estabelecida entre os cães e seres humanos é a habilidade de manter o contato visual. Ao contrário dos lobos, os cães não só toleram o contato visual com o ser humano como até procuram por ele para obter permissão ou pedir algo que queiram. Um estudo do pesquisador húngaro Adam Miklósi[7] comparou cães e lobos socializados que vivem com seres humanos, quanto à habilidade comunicativa visual. Os animais foram treinados para executar a tarefa de abrir uma caixa para pegar comida, e após aprenderem a tarefa, foram submetidos a uma situação experimental em que a caixa era lacrada e o dono estava presente no mesmo recinto. Quando não conseguiam solucionar a tarefa os cães olhavam para seus donos por um tempo significativamente maior do que lobos, de fato, quase todos os lobos estudados não procuraram o contato visual dos seus donos. 
Além de procurar o contato visual do ser humano os cães também aprenderam a interpretar os gestos de apontar do ser humano, habilidade que pode ter sido vantajosa para os cães em algum ponto da evolução, quando eles passaram a trabalhar em conjunto com o ser humano. O gesto de apontar é considerado um dos gestos não-verbais mais usados pelo ser humano para indicar objetos e eventos. Várias pesquisas usaram uma tarefa de escolha entre dois potes para estudar essa habilidade dos cães[8]. Nessa tarefa o ser humano se colocava entre dois potes, um deles contendo um pedaço de comida. Como o objetivo dessas pesquisas era avaliar se os cães seriam capazes de escolher o pote correto com base somente nos gestos de apontar do ser humano, ambos os potes apresentavam o cheiro da comida. Os gestos de apontar testados foram desde os mais evidentes como apontar com o braço, mão, dedos, direção corporal, até os mais sutis como inclinação da cabeça ou simplesmente direção do olhar. Os resultados sugerem que os cães interpretam as dicas mais evidentes com facilidade, e as mais sutis eles são capazes de aprender a medida que são submetidos a poucas repetições. Esse mesmo modelo experimental foi aplicado em outra pesquisa para comparar cães com crianças de 20 meses de idade, chimpanzés que vivem em cativeiro em contato com seres humanos e lobos socializados que vivem com seres humanos. Os resultados foram surpreendentes, os cães apresentaram desempenho tão bom quanto as crianças, com taxas de acerto em torno de 80%, enquanto que os chimpanzés e os lobos socializados apresentaram desempenhos próximos da escolha ao acaso. Uma pesquisa recente da pesquisadora húngara Martha Gácsi[9] ainda compararou o desempenho de raças de cães que foram selecionadas para diferentes tipos de trabalho. Três grupos foram comparados, o primeiro composto por raças de cães de trabalho independente, selecionadas para o trabalho sem contato visual com o ser humano, como, por exemplo, cães para caça subterrânea, cães de guarda e que puxam trenós; o segundo grupo composto por raças de cães de trabalho cooperativos, selecionadas para trabalhar em contato visual com o ser humano, como por exemplo, cães pastores, de busca, como labradores e goldens retrievers, e o terceiro grupo composto por cães sem raça definida. As raças cooperativas apresentaram o melhor desempenho entre os três grupos na tarefa de escolha entre dois potes com base em gestos de apontar do ser humano. Esse resultado mostra que a habilidade de interpretar os gestos do ser humano varia entre as raças de cães, e, portanto, a seleção artificial também cumpre um importante papel no desenvolvimento das habilidades comunicativas dos cães.            
Além da compreensão dos gestos dos seres humanos, os cães também desenvolveram a capacidade de produção de sinais. Eles são capazes de mostrar para seus donos o local de brinquedos ou alimentos escondidos[10] simplesmente alternando olhares entre o esconderijo e o dono e vocalizando. As vocalizações dos cães, por sua vez, também adquiriram funções específicas para comunicação com o ser humano. Os lobos raramente latem quando adultos, já os cães latem freqüentemente e nas mais diversas situações. A estrutura acústica dos latidos do cães foi comparada em três contextos diferentes: quando o dono chega em casa, quando uma pessoa estranha toca a campainha e quando o cão tem um encontro agonístico com outro cão, sendo, de fato, muito diferente[11]. 
Os cães possuem, portanto, um grande repertório de comportamentos naturais para se comunicar com os seres humanos. Mas será que eles seriam capazes de se comunicar por meio de símbolos? Os pesquisadores brasileiros Alexandre Rossi e César Ades[12] mostraram que sim. Eles treinaram a primeira cadela a utilizar um teclado com símbolos arbitrários para pedir água, comida, brinquedo, casinha, carinho e passeio, pressionando com a pata o símbolo correspondente ao seu desejo. Após o período de treino, a cadela passou a usar o teclado espontaneamente, e, a concordância entre a direção do seu olhar antes de usar o teclado e o símbolo pressionado indicava o uso coerente desse dispositivo criado pelos pesquisadores. Mais ainda, ela foi filmada por longos períodos sozinha com o teclado e, observou-se que, sem a presença de uma audiência para seus pedidos, um ser humano, ela não o utilizava, confirmando a função comunicativa do teclado. Os cães desenvolveram ainda muitas outras características cognitivas para viver ao lado ao ser humano. Uma delas é a capacidade de associar a voz do dono à sua imagem. Cães foram submetidos à um modelo experimental chamado violação de expectativa, em que pesquisadores mostravam uma foto do dono após tocar um “playback” de uma voz desconhecida (pareamento incoerente), ou uma foto do dono após sua própria voz (pareamento coerente). Os cães olharam por um tempo signiticativamente maior para as fotos dos pareamentos incoerentes, o que sugere que eles possuem uma representação mental da face do dono quando escutam a sua voz e, por isso, demonstraram uma certa perturbação quando uma imagem diferente aparece após ouvirem a voz do dono[13]. Não há duvidas de que o cão realmente se comunica com o ser humano, mas há, entre os estudiosos do assunto, opiniões diversas sobre a origem das habilidades comunicativas dos cães. Alguns defendem a hipótese de que o processo de domesticação teria sido o responsável pela seleção dessas características, de forma direta ou indireta (como o sub-produto da seleção de outras características como a docilidade), e que teria, portanto, uma base genética; outros acreditam que a aprendizagem ao longo da vida do cão em contato com o ser humano seria o principal determinante para o desenvolvimento das habilidades comunicativas. Em uma polêmica série de artigos científicos, pesquisadores dialogaram sobre essas hipóteses. A pesquisa de Julia Riedel[14] e colaboradores testou cães de diferentes idades na tarefa de encontrar comida escondida com base nos gestos de apontar dos seres humanos e concluíram que, mesmo os mais filhotes, já são capazes de seguir o gesto de apontar dos seres humanos, reforçando a hipótese de um determinante genético. Em seguida, o grupo de Clive Wynne[15] propôs uma reanálise desses mesmos dados e atribuiu a ausência de diferença entre filhotes e adultos à escolha inadequada do método de análise estatística dos dados. Esse mesmo grupo, ainda, verificou que lobos criados por seres humanos também são capazes de seguir seus gestos, reforçando a hipótese de aprendizagem[16]. Por fim, Brian Hare[17] e seus colaboradores, também defensores da hipótese de domesticação, propuseram novos desenhos experimentais e verificaram que, de fato, desde muito cedo cães já apresentam habilidades comunicativas, e que elas não se modificam significativamente com a idade. A própria falta de consenso é um sinal de que muito ainda precisa ser investigado. Possivelmente as duas hipóteses sejam complementares e não concorrentes. Deve existir uma base genética para as habilidades comunicativas dos cães, selecionada ao longo da domesticação mas, sem dúvida, diferentes experiências possibilitam diferentes graus de desenvolvimento desta comunicação. O estudo da comunicação entre cão e ser humano é de grande relevância para ambas as espécies, já que o cão foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem e é, certamente, o mais próximo, alcançando muitas vezes o status de membro da família. A convivência diária favorece a aprendizagem para ambas as espécies, e cão e dono estabelecem seus próprios rituais de comunicação que normalmente funcionam muito bem. Entretanto, às vezes podem ocorrer falhas na comunicação que são, em geral, as principais responsáveis por problemas comportamentais e abandono. Quando o dono não reconhece que está diante de uma espécie diferente, com funcionamento e necessidades distintas, a relação entre cão e dono pode ser ameaçada. Conhecer as necessidades dos cães e respeitá-las é, portanto, a chave para uma relação saudável e de confiança mútua. A eficiente comunicação estabelecida entre o cão e ser humano é, de fato, a razão do sucesso dessa afinidade entre duas espécies tão dferentes e ao mesmo tempo tão próximas.   
Referências 1.     MIKLÓSI, A. (2007). Dog behaviour, Evolution and Cognition. Oxford University press. 2.     DAVIS, S.J.M. & VALLA, F.R. (1978). Evidence for domestication of the dog 12.000 years ago in the Natufian of Israel. Nature, 276, 608-610. 3.     BEAVER., V.B. (2001). Comportamento canino. Editora Roca: São Paulo. 4.     COPPINGER, R.P. & COPPINGER, L. (2001). Dogs: a new undertanding of canine origin, behavior and evolution. University of Chicago Press, Chicago. 5.     BELYAEV, D.K. (1979). Destabilization selection as a factor in domestication. Journal of Heridity, 70, 301-308. 6.     BELYAEV, D.K.; PLYUSNINA, I.Z. and TRUT, L.N. (1985). Domestication in the silver fox (Vulpes Fulvus): changes in physiological boundaries of the selective period of primary socialization. Applied Animal Behaviour Science, 13, 359-370.  7.     MIKLÓSI, A.; KUBINYI, E.; TOPÁL, J.; GÁCSI, M.; VIRÁNYI, Zs. & CSÁNYI, V. (2003). A simple reason for a big difference: wolves do not look back at humans but dogs do. Current Biology, 13, 763-766. 8.     CSÁNYI, V. (2000) If dogs could talk. North Point Press, New York. 9.     GÁCSI et al. (2009). Effects of selection for cooperation and attention in dogs. Behavioral and Brain Functions, 5:31. 10.   MIKLÓSI, A. P. R.; TOPÁL, J.; CSÁNYI, V. (2000). Intentional behaviour in dog-human communication: an experimental analysis of "showing" behaviour in the dog. Animal Cognition, 3(3), 159-166. 11.   YIN, S. (2002). A new perspective on barking in dogs (Canis familiaris). Journal of Comparative Psychology 116 (2), 189-193. 12.   ROSSI, A. P. & ADES, C. (2008). A dog at the keyboard: using arbitrary signs to communicate requests. Animal Cognition. doi:10.1007/s10071-007-0122-3. 13.   ADACHI, I. KUWAHATA, H. FUJITA, K. (2007). Dogs recall their owner’s face upon hearing the owner’s voice. Animal Cognition 10: 17–21. 14.   RIEDEL, J.; SCHUMANN, K.; KAMINSKI, J.; CALL, J. & TOMASELLO, M. (2008). The early ontogeny of human-dog communication. Animal Behaviour, 75, 1003-1014. 15.   WYNNE, C. D. L.; UDELL, M. A. R. & LORD, K. A. (2008). Ontogeny’s impacts on human-dog communication. Animal Behaviour, doi: 10.1016/j.anbehav.2008.03.010. 16.   UDELL, M. A. R.; DOREY, N. R. & WYNNE, C. D. L. (2008). Wolves outperform dogs in following human social cues. Animal Behaviour, doi: 10.1016/j.anbehav.2008.07.028. 17.   HARE, B.; ROSATI, A.; KAMINSKI, J.; BRÄUER, J.; CALL, J. & TOMASELLO, M. (2010). The domestication hypothesis for dog's skills with human communication: a response to Udell et al. (2008) and Wynne et al. (2008). Animal Behaviour, 79, e1-e6.