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Os cães são inteligentes

Carine Savalli; Maria Mascarenhas Brandão; César Ades

As pesquisas mais recentes indicam que os cães possuem capacidades cognitivas admiráveis, que vão desde uma competência numérica rudimentar, capacidade de interação e aprendizagem social, habilidade de compreender comandos complexos e de associar palavras a objetos, memória, entre outras. Em alguns casos, surpreende verificar que os cães se mostrem mais aptos, do ponto de vista cognitivo, que os chimpanzés, que são nossos parentes mais próximos. Estas pesquisas confirmam de certa forma a crença de muitos donos de cães quanto à inteligência de seus animais, mas fornecem um quadro mais preciso e científico e indicam os limites, em alguns domínios, da capacidade cognitiva dos cães.  A aptidão canina provém, de um lado, de seu passado como lobo (o lobo pertence à uma espécie com vida social complexa, adaptada a uma rotina predatória rica de desafios) e, de outro lado, de sua domesticação, durante a qual, em contato estreito com o ser humano, o cão foi aperfeiçoando as capacidades de comunicação e de resolução de problemas. Neste texto será feita uma breve revisão do que já se sabe sobre algumas das capacidades cognitivas dos cães, começando com processos cognitivos básicos (competência numérica, permanência na memória de objetos percebidos, habilidade de associar palavras a objetos etc.) e passando para as habilidades que indicam que cães têm uma inteligência social. 
Começamos, então, pela competência numérica. Assim como em diversas espécies de animais, encontrou-se nos cães evidências de um grau de competência numérica elementar. Essa habilidade pode trazer uma vantagem adaptativa para animais sociais - como os lobos,  parentes mais próximos dos cães domésticos - permitindo, por exemplo, que seja monitorado o número de membros do grupo. Num estudo interessante, cães foram submetidos a um procedimento experimental usado por psicólogos com bebês através do qual são avaliados os processos cognitivos espontâneos que ocorrem durante raciocínios numéricos rudimentares[1]. Cães eram colocados diante de um recipiente no qual havia um pedaço de alimento. Em seguida, um anteparo era colocado de tal forma a impedir o cão de ter acesso visual ao recipiente. A atenção do cão era então atraída para um segundo pedaço de alimento que o experimentador colocava atrás do mesmo anteparo. No fim, o anteparo era retirado. Os animais foram testados em três condições experimentais. Na primeira (denominada “1+1=2”), o resultado era esperado: o cão via no final dois pedaços de alimento como resultado do acréscimo de um pedaço a outro pré-existente. Nas outras duas condições (“1+1=1” e “1+1=3”), a lógica da adição era violada. Na condição “1+1=1”, após o acréscimo simulado do segundo pedaço de alimento atrás do anteparo, ele era retirado, deixando-se apenas um pedaço no recipiente. Na terceira condição,  um terceiro pedaço era colocado no recipiente sem o cão perceber.
Diante dos resultados incorretos os cães passaram um tempo significativamente maior olhando para o recipiente, indicando um estranhamento diante do resultado inesperado. A pesquisa sugere que os cães podem integrar informações sucessivas, antecipando um resultado (dois pedaços de alimento) e reagir a discrepâncias. Talvez tenham, então, uma competência numérica rudimentar relacionada a pequenas quantidades.

Outro processo cognitivo básico que parece existir nos cães é a permanência na memória de objetos percebidos. Segundo Piaget, um dos principais teóricos do desenvolvimento humano, a percepção de permanência de objetos, aparece nas crianças a partir dos dois anos de idade. Trata-se da habilidade de perceber que um objeto continua existindo mesmo quando desaparece do campo visual. A permanência de objetos parece ter uma função importante na vida de qualquer animal: para localizar uma presa que desapareceu ou para lembrar ou predizer a posição de parceiros sociais. 
Experimentalmente esta habilidade é comumente demonstrada em dois diferentes tipos de tarefas: a tarefa de deslocamento visível, em que um objeto é escondido em algum recipiente na presença do sujeito, que deve depois localizá-lo; e a tarefa de deslocamento invisível, na qual o objeto é escondido de forma indireta, na frente do cão, passando primeiro por um recipiente intermediário e transferido ‘invisivelmente’ para o esconderijo, de forma que o sujeito apenas veja que o recipiente intermediário, que antes continha o objeto, ficou vazio.

As pesquisas com tarefas de deslocamento visível permitem investigar diferentes habilidades cognitivas dos cães como por exemplo a memória. Fiset[2] avaliou a duração da memória operacional (uma memória de duração relativamente curta) em cães numa tarefa de deslocamento visível de objetos. Cães de diferentes raças foram testados para procurar um brinquedo que era escondido na sua presença por um experimentador, em uma entre quatro possíveis caixas. Os cães ficavam presos à coleira e, após escondido o objeto, um anteparo opaco era colocado na sua frente, impedindo a sua visão das caixas. Após diferentes intervalos de retenção, o anteparo era retirado e o sujeito liberado para a busca do objeto. No primeiro experimento foram testados quatro diferentes intervalos de retenção: 0, 10, 30 e 60 segundos. Os resultados indicaram um bom desempenho dos cães para os intervalos de 0 e 10 segundos, em seguida um declínio do desempenho à medida em que aumentava o intervalo de retenção, mas ainda assim mantendo-se o número de acertos acima do acaso, mesmo no maior intervalo. No segundo experimento com outros cães foram testados para intervalos de renteção de 0, 30, 60, 120 e 240 segundos, apresentando resultados semelhantes: sucesso para os intervalos de 0 e 30 segundos de retenção com declínio do desempenho nos intervalos maiores, mas ainda com acertos acima do acaso para todos eles.
A análise dos erros mostrou que as escolhas incorretas não foram afetadas pela localização do esconderijo da tentativa anterior, mas que, em contrapartida apresentaram relação com a proximidade do esconderijo correto da tentativa em curso. As autoras sustentam a hipótese de que os cães tinham uma representação mental do local do objeto escondido que lhes permitiu localizar o esconderijo correto, uma vez que a presença do anteparo garantia que não fossem usadas dicas acidentais (dicas espaciais e de posição corporal e direção da cabeça/do olhar do cão).
Ainda há controvérsia quanto à capacidade de os cães resolverem a tarefa de deslocamento invisível. Raras espécies além dos humanos (apenas os pongídeos) têm comprovada esta capacidade. Fiset e LeBlanc[3] realizaram uma pesquisa em que cães foram submetidos às tarefas de deslocamento visível (DV) e deslocamento invisível (DI) em duas condições – com o experimentador visível e ocultado por um anteparo – com o objetivo de verificar se o desempenho dos cães nas tarefas seria produto de dicas sutis dadas involuntariamente pelo experimentador, bem como se estas dicas seriam usadas apenas dependendo da complexidade da tarefa. Os resultados mostraram que tanto com experimentador visível ou não, os cães apresentaram desempenhos bastante satisfatórios na tarefa de DV. Já para a condição DI os resultados não foram claros, embora na presença do experimentador o desempenho dos cães tivesse melhorado um pouco. Os autores concluem que não há evidências suficientes de que os cães compreendam o deslocamento invisível.
Outra capacidade cognitiva que já foi objeto de estudo é a habilidade de compreender comandos complexos e de associar palavras a objetos. Uma criança de dois anos de idade costuma incorporar em seu vocabulário por volta de 10 palavras por dia. Um border collie chamado Rico, que vivia como um animal de estimação, foi estudado pela sua admirável capacidade de aprender novas palavras por exclusão, um processo chamado mapeamento rápido[4]. Rico foi estimulado desde os 10 meses de idade a buscar objetos: seu dono lhe apresentava um objeto e repetia-lhe duas ou três vezes o nome. Com quase 10 anos de idade, Rico já tinha incorporado ao seu vocabulário o nome de mais de 200 objetos. 
Um primeiro experimento buscou verificar se Rico realmente sabia o nome dos objetos expondo-o a 20 sessões com 10 objetos cada. Ao longo das sessões foram feitos 40 pedidos e Rico trouxe o objeto correto 37 vezes. Em um segundo experimento, Rico foi submetido a uma situação em que um novo objeto era colocado em meio a outros sete já conhecidos, sendo então feito um pedido, pelo experimentador, de um novo nome, desconhecido pelo cão. Foram feitas 10 sessões, cada uma com um novo objeto, o primeiro pedido era sempre um objeto conhecido e os dois pedidos seguintes eram nomes novos para Rico. Em sete das 10 sessões Rico trouxe o novo objeto, indicando que aparentemente foi capaz de aprender por exclusão, associando um novo nome ao único objeto novo entre os oito apresentados. Mais do que isso, Rico foi capaz de armazenar na memória essa associação já que mesmo após quatro semanas ele ainda trazia o novo objeto boa parte das sessões. Este processo cognitivo, semelhante ao de crianças pequenas, é chamado mapeamento rápido. Estudo recente da veterinária brasileira Daniela Ramos mostra todavia que, para os cães, a aprendizagem de comando de ação (“deita”, “dá a pata”, etc.) é mais fácil do que a aprendizagem de pedidos para reconhecer um objeto no ambiente[5].

Mais interessante até do que estudar processos cognitivos básicos presentes no cão, é estudar a sua inteligência social. Os cães são animais sociais que interagem entre si de forma complexa. Essas interações incluem táticas cooperativas, reconhecimento de membros do grupo, uma comunicação intra-específica bem elaborada, entre outras. Viver em sociedade traz desafios que exigem o desenvolvimento de habilidades para lidar com os outros membros do grupo, e existem teorias que defendem que os maiores desafios cognitivos não vêm do ambiente, mas sim do convívio com o grupo. Portanto, os desafios que a vida em sociedade impõem são atualmente considerados os maiores responsáveis pelo desenvolvimento de capacidades cognitivas associadas comumente à inteligência.
Observar o comportamento de um outro sujeito que obtém sucesso em alguma atividade pode auxiliar o observador em uma situação semelhante, se ele for capaz de copiar o comportamento desse sujeito. Um elegante estudo da pesquisadora Friederike Range e colaboradores mostrou que os cães podem imitar de forma seletiva outro cão[6], ou seja, eles são capazes de selecionar as ações de um modelo dependendo das restrições do contexto. Nesse estudo uma cadela foi treinada a puxar uma alavanca para baixo com a pata para abrir uma caixa e liberar um alimento, contrariando o comportamento natural que os cães teriam nessa situação, de puxar a alavanca com a boca. Dois grupos foram comparados, para o primeiro grupo a cadela modelo tinha uma bola na boca, o que representaria uma restrição ao uso da boca para solucionar a tarefa, e para o segundo grupo a boca da cadela modelo estava livre.
Surpreendentemente, após observar a cadela resolver o problema, o primeiro grupo usou com maior frequência a boca para puxar a alavanca, enquanto que o segundo grupo usou com maior frequência a própria pata. Os cães do primeiro grupo parecem ter compreendido que a cadela modelo não usou a boca para puxar a alavanca somente porque estava ocupada com uma bola, o que representava uma restrição ao uso preferencial da boca, e por isso imitaram somente a ação de puxar a alavanca e não o método. Esse estudo apresentou evidências de que os cães são capazes de imitar seletivamente a ação de um demonstrador, ou seja, imitar somente o que é importante para reproduzir o sucesso.
Mas os cães não copiam somente ações de outros cães, eles são também capazes de copiar ações do ser humano. Ao longo da extensa história de domesticação os cães adquiriram traços comportamentais e cognitivos para se adaptar à vida social do ser humano e por passar a maior parte da vida ao seu lado, eles têm muitas oportunidades de usar o seu comportamento como fonte de informação para resolver problemas.
Em uma tarefa em que o ser humano apertava uma alavanca para esquerda ou para direita para liberar uma bola de dentro de uma caixa, os cães que observaram o ser humano apertando a alavanca tendiam a fazer o mesmo, diferentemente daqueles que não tiveram o ser humano como modelo[7]. Isso indica que os cães talvez tenham uma pré-disposição para copiar o comportamento do ser humano, embora o processo cognitivo que está por trás dessa habilidade de imitação ainda não seja bem conhecido. 
Outra pesquisa recente treinou um cão de assistência, o Philip, a executar o comando “Faça” para uma ação anteriormente executada por um modelo[8]. As ações estudadas incluiam desde dar uma volta em torno de si mesmo, latir, pular, colocar um objeto em uma caixa, levar um objeto à uma pessoa da família, até empurrar uma vara no chão. Após um mês de treino o cão estava muito habilidoso em repetir essas ações feitas por um modelo como resposta ao comando “Faça”, mesmo sem reforço (alimento), com outra pessoa, diferente da que ele foi treinado, e até mesmo para comportamentos completamente novos, indicando que esse cão foi capaz de generalizar uma regra de imitação aprendida durante um treino para outros contextos.
Outra evidência de que o comportamento do ser humano pode ser uma fonte de informação para os cães solucionarem um problema foi apresentada por Pongrácz e colaboradores[9]. Cães foram testados em uma tarefa de percorrer um trajeto para passar ao outro lado de uma cerca em forma de V para buscar um objeto de desejo. Em um primeiro experimento, cães foram divididos em dois grupos de acordo com o trajeto que deveriam percorrer: “trajeto fora-dentro”– grupo que deveria fazer o trajeto rumo ao ângulo interno da cerca; e “trajeto dentro-fora” – grupo que deveria seguir em direção ao ângulo externo da cerca.
Os resultados indicaram que os cães sabem percorrer o trajeto (excluindo a hipótese de respostas por dicas olfativas), mas foi observada uma diferença marcante entre os grupos: para o “trajeto fora-dentro”, os tempos de resposta dos cães foram significativamente maiores do que para o trajeto inverso, e não houve um efeito importante da experiência ao longo das tentativas. Possivelmente os cães tenham maior facilidade para “trajeto dentro-fora”, e o façam mais rapidamente, por ser mais comum no seu dia-a-dia estar diante de situações em que eles precisam sair de algum lugar ao invés de entrar nele.
Em um segundo experimento baseado na tarefa de percorrer a “trajetória fora-dentro”, outros cães foram divididos em três grupos: grupo com demonstração do experimentador; grupo com demonstração do dono; e grupo sem demonstração. Nos dois primeiros grupos, os cães tiveram a oportunidade de observar um ser humano percorrendo o trajeto que eles deveriam fazer, antes de executar a tarefa. Os cães que observaram humanos (experimentador ou dono, indiscriminadamente) percorrendo o trajeto tiveram melhores desempenhos, embora sua resposta não tenha tido topografia semelhante: o lado da cerca pelo qual seguiram baseou-se mais na sua própria primeira experiência bem sucedida do que pelo modelo dos demonstradores, mais uma evidência de que a aprendizagem por observação não precisa ser necessariamente uma cópia exata do comportamento, mas pode sim assumir uma nova forma mantendo a função da resposta. Verificou-se também que os cães que não conseguiram na primeira tentativa chegar ao objeto-alvo foram capazes de aprender após observarem o modelo. Esses achados levantam questões sobre qual seria o papel do ser humano nesta facilitação da resolução da tarefa pelos cães. Eles já haviam demonstrado a capacidade de executar a tarefa, a motivação era sustentada pelo objeto-alvo independentemente dos modelos e o incentivo do dono não revelou diferenças significativas quando comparado com uma pessoa não-familiar. Entretanto, os desempenhos foram indiscutivelmente superiores após a demonstração dos seres humanos.
Portanto, os donos de cães não estão enganados quando afirmam que seus animais são extremamente inteligentes, entretanto muitos estudos ainda precisam ser feitos para elucidar os limites dessa inteligência. Esse campo de estudo está em pleno desenvolvimento, a cada ano novos dados e teorias a respeito são apresentados. Mas já é consenso entre os estudiosos que o ser humano tem uma participacão decisiva na evolução da inteligência do cão, pois o convívio contínuo com a nossa espécie exige uma adaptação especial, além de facilitar a aquisição de competências e comportamentos muitas vezes semelhantes aos nossos.

Referências
1. West, R. and Young, R.J. (2002). Do domestic dogs show any evidence of being able to count. Animal Cognition, 5, 183-186.
2. Fiset, L., Beaulieu, C. & Landry, F. (2003) Duration of dogs’ (Canis familiaris) working memory in search for disappearing objects. Animal Cognition, 6, 1-10.
3. Fiset, S. & LeBlanc, V. (2007) Invisible displacement understanding in domestic dogs (Canis familiaris): the role of visual cues in search behavior. Animal Cognition, 10, 211-224.
4. Kaminsky, J. Call, J. and Fisher, J. (2004). Word Learning in a Domestic Dog: Evidence for “Fast Mapping”. Science, 304, 1682-1683. 
5. Ramos, D. e Mills, D.F. (2009). Responsiveness of domestic dogs (Canis familiaris) to verbal OBJECT and ACTION commands. Trabalho apresentado no congresso 31st International Ethological Conference, Rennes, França.
6. Range,F. Viranyi, S and Huber, L. (2007) Selective Imitation in Domestic Dogs. Current Biology 17, 868–872.
7. Kubinyi, E. Miklósi, A., Tópal, J. and Csányi, V. (2003). Social Antecipation in dogs: a new form of social influence. Animal Cognition, 6, 57-64.
8. Tópal, J. Byrne, R.W., Miklósi, A. and Csányi, V. (2006). Reproducing human actions and action sequences: “Do as I do” in dogs. Animal Cognition, 9, 355-367.
9. Pongrácz, P. et al. (2001) Social Learning in dogs: the effect of a human demonstrator on the performance of dogs in a detour task. Animal Behaviour, 62, 1109-1117.