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Quando o cão e o ser humano se apegam um ao outro

Carine Savalli; Maria Mascarenhas Brandão; César Ades

Na década de 1950, o psicanalista inglês John Bowlby, trabalhando para a Organização Mundial de Saúde, escreveu um relatório sobre as consequências negativas que a ausência da mãe tinha para crianças sem lar. Naquela oportunidade, ele ainda não tinha uma idéia exata a respeito dos fatores que causavam tais danos no desenvolvimento. Iniciou então uma extensa pesquisa, pautada na observação da relação de crianças com uma figura materna (usualmente a mãe) e percebeu que a perda, mesmo que temporária, desta figura, gerava reações de protesto, desespero e desapego[1]. Assim começou a tomar forma a concepção de Bowlby a respeito da vinculação especial que se cria entre crianças e suas mães (ou figuras adultas relevantes), uma vinculação que passou a ser conhecida pelo nome de apego.
O apego pode ser definido então como um tipo de relação que se estabelece entre o bebê e uma figura materna, preparando-o para o contato com o mundo, tendo a mãe como uma base segura. Para tanto, a criança se comporta de forma a manter-se próxima desta base. Esta relação teria uma função de sobrevivência, já que a mãe poderia afastar perigos e prover as necessidades essenciais do bebê. 
Apesar da ênfase dada à relação de apego entre a mãe e bebê humanos, o apego não é um processo restrito à nossa espécie. Quando desenvolveu sua teoria, Bowlby foi influenciado pelas idéias do etólogo Konrad Lorenz a respeito do fenômeno da estampagem (imprinting). Lorenz mostrou que filhotes de ganso, criados em incubadora, criam um elo com objetos ou pessoas que vêem, se estes objetos ou pessoas estiverem em movimento e se aparecerem num período crítico do desenvolvimento, logo depois do nascimento. Os filhotes de ganso seguem os objetos ou pessoas como se fosse a própria mãe: nesta foto bem conhecida, vemos gansinhos seguindo Lorenz ao qual se apegaram. 
Em algumas espécies, a estampagem pode influenciar até as escolhas que o indivíduo manifesta em relação a parceiros sexuais, havendo preferência pelas figuras iniciais de apego[1]. 
A formação de um elo forte entre mãe e filhote foi estudada também em primatas, sendo clássicos os estudos de Harry Harlow com macacos rhesus. Filhotes de rhesus separados da mãe se apegam a um boneco de mãe que tenha semelhança com o calor e a maciez da mãe verdadeira (a “mãe felpuda”). A “mãe felpuda” passa a constituir uma base de segurança, diminuindo o estresse do filhote em situações novas e ameaçadoras. Eles até preferem a “mãe felpuda” ao invés de uma “mãe de metal” que fornece leite.
Um procedimento de estudo proposto pela psicóloga Mary Ainsworth, chamado Teste da Situação Estranha, permite estudar a relação de apego estabelecida entre mãe e filho[2] e pôde mais tarde ser replicado no estudo da possível relação de apego entre cães e seus donos. A criança é colocada em uma sala estranha com sua mãe e após alguns minutos, a mãe sai da sala e entra uma pessoa estranha para a criança. Esta também sai e finalmente a criança é reunida à mãe. Submetendo a criança a pequenos episódios de separação da mãe, que duram poucos minutos, na presença de uma pessoa não-familiar ou até mesmo sozinha, é possível estudar a relação de apego. Espera-se que após a reunião com a mãe, a criança volte a se sentir mais segura para explorar extensamente o ambiente e brincar. As crianças diferem, porém, quanto ao seu “estilo de apego”, algumas são mais seguras e se adaptam à novidade e à separação melhor do que outras. Muitas crianças, na ausência da mãe, apresentam comportamentos de protesto, choram, vão até porta, ficam paradas ao lado desta, tentam abri-la, vão até a cadeira vazia onde antes estava a mãe, ou simplesmente olham para tal cadeira. Esses comportamentos fornecem informações sobre o grau de apego e sobre o grau de estresse que a separação causa às crianças.
Mary Ainsworth sugere ainda que o “efeito de base segura” é um fator primordial para identificar um vínculo de apego. O Teste da Situação Estranha fornece evidências sobre esse efeito. Para que a figura de apego seja considerada uma “base segura” para o sujeito, os comportamentos de brincar e explorar devem diminuir na presença da pessoa estranha, mas devem ser retomados quando a figura de apego retorna à sala. Além disso, quando a pessoa estranha entra na sala enquanto a mãe ainda está lá, espera-se que a criança mantenha-se ao lado da mãe. Por fim, na presença da mãe as crianças devem ser suficientemente confiantes para brincar com a pessoa estranha, mas não sua ausência. 
A relação entre o cão e o dono também merece atenção pois se assemelha à relação mãe-filho de muitas maneiras. Os donos tendem a tratar seus cães como criança e muitos padrões comportamentais dos cães parecem especialmente direcionados para eliciar o cuidado de seus donos, assim como fazem as crianças.
Pesquisadores húngaros submeteram cães ao Teste da Situação Estranha e verificaram que eles exploram e brincam mais na presença do dono do que na presença de uma pessoa estranha[3]. Entretanto, esse estudo não investigou o estresse causado pela separação do dono.
Para assumirmos que a relação de apego entre o cão e o dono assemelha-se à relação de apego mãe-filho é necessário também estudar o comportamento dos animais na ausência do dono. Sinais de estresse ou protesto durante a separação poderiam ser indicados por meio de vocalizações e comportamentos de procura. Isso foi feito no estudo de Emanuela Prato-Previde e colaboradores[4] em que cães foram observados durante oito episódios descritos na Figura 3, uma adaptação do Teste de Situação Estranha.
Os resultados desse estudo confirmaram que a relação entre o cão e o dono apresenta algumas semelhanças com o apego estabelecido entre mãe e filho. Os comportamentos de exploração e brincadeira foram, de fato, mais frequentes na presença do dono, tendo diminuído significativamente após a entrada da pessoa estranha na sala. Muitos cães observavam o estranho à distância, entretanto, alguns cães não se mostraram tão cautelosos com a pessoa estranha na sala e eram até, às vezes, capazes de estabelecer contato. Na ausência dos donos, porém, os cães mostraram-se estressados e protestaram durante a separação, apresentando comportamento de procura e orientação para o local em que os donos estavam antes de sair, incluindo ainda comportamentos direcionados à porta como arranhar e pular. Os cães também apresentaram mais latidos e ganidos na ausência do dono, e mais ainda quando totalmente sozinhos, situação em que preferiam estabelecer contato com os objetos de seus donos. O retorno da pessoa estranha não foi capaz de confortar os cães, sendo esse um resultado consistente com o apego descrito para crianças.


Outros dois estudos investigaram o apego entre cães e seres humanos em diferentes circunstâncias. No primeiro cães adultos de dois abrigos húngaros que tinham um escasso contato social com seres humanos foram submetidos ao mesmo Teste da Situação Estranha[5]. As amostras dos dois abrigos eram semelhantes em número de cães, sexo, raça e idade e ambas foram dividas em dois grupos: Experimental – em que os sujeitos receberam atenção de um cuidador que fez o papel de dono por alguns momentos, durante três dias consecutivos antes da testagem; e Controle – grupo sem atenção social. Como resultado verificou-se que os cães do grupo Experimental, diferente dos cães do grupo Controle, apresentaram um padrão de comportamento que preenche os critérios de apego: a) os cães foram hábeis em discriminar e responder à figura de apego; b) demonstraram preferência pela figura de apego; c) responderam à separação e reencontro com a figura de apego diferentemente da figura não-familiar. Os cães que tiveram contato social registraram maior busca por contato visual e físico da figura de apego e mais tempo passado perto da porta quando o seu "dono" estava fora. 
Em termos práticos, esse resultado responde ao argumento de pessoas que evitam adotar cães adultos, movidos pela crença geral de que, tendo passado o seu período crítico de socialização, o cão adulto teria dificuldades para formar laços com o novo dono. Esta pesquisa revelou exatamente o contrário, que mesmo cães adultos podem formar novas relações de apego com novos donos e talvez a extrema carência de contato social atue até como facilitadora ou aceleradora na formação do apego.
Com o objetivo de identificar as possíveis origens desse processo de vinculação entre cão e dono, outro estudo procurou investigar se o apego seria o resultado da socialização na história de vida do animal com o ser humano ou se seria uma decorrência da domesticação[6]. Para tanto, compararam-se três grupos: Grupo 1 – lobos filhotes separados das mães 3 a 5 dias após o nascimento e criados pelos experimentadores com atenção especial (contato de 20 a 24 horas diárias com o seu cuidador); Grupo 2 – cães filhotes também separados precocemente das mães e criados exatamente da mesma forma que no primeiro grupo; e Grupo 3 – cães filhotes separados das mães mais tardiamente (7 a 9 semanas) e criados por proprietários em seus lares. Os três grupos foram submetidos ao mesmo Teste da Situação Estranha com cerca de 16 semanas. Embora alguma semelhança tenha sido observada no comportamento dos grupos de lobos e cães criados desde muito cedo pelos seres humanos, os dois grupos de cães apresentaram padrões muito mais parecidos com relação aos comportamentos dirigidos à figura de apego. Esse estudo apóia a hipótese de que a domesticação poderia ser a responsável pelas origens desse processo, uma vez que tanto os cães criados desde muito cedo por seres humanos quanto os que tiveram contato mais tardio com eles criaram vínculos de apego, sugerindo, portanto, que os cães podem ter uma pré-disposição genética para se apegarem aos seres humanos. 
Esse conjunto de estudos mostra que, para qualquer idade ou qualquer histórico de vida, os cães são capazes de estabelecer um forte vínculo com seus donos, de certa forma até semelhante à relação de apego estabelecida entre mãe e filho. Há, contudo, outras questões que ainda merecem ser estudadas como, por exemplo, os diferentes tipos de vinculação e em que medida a relação entre o cão e dono se assemelha ao apego do cão filhote e sua própria mãe.
Mas será que essa relação de apego é bidirecional? Tudo parece indicar que sentimentos de apego, às vezes muito fortes, são criados também no dono em relação ao seu animal. Donos de cães relatam o sentimento de falta que lhes causa a ausência do animal e sua alegria ao reencontrá-lo. Estudos mostram o papel anti-estresse que o contato com cães pode ter: a interação com estes animais reduz parâmetros fisiológicos associados ao estresse como as catecolaminas e o cortisol[7]. 
Mas há algo mais do que a redução de estresse, há indícios que o contato entre o cão e seu dono pode ser marcado pela produção de hormônios envolvidos na criação de afeto e de uma relação de apego. A ocitocina é um desses hormônios. É uma substância produzida pelo hipotálamo cuja função é controlar as contrações uterinas durante o parto e a produção de leite materno. Descobriu-se que ela também bloqueia hormônios de estresse e, recentemente, que ela tem um papel importante em comportamentos sociais:  no reconhecimento individual, no apego, na ansiedade, na confiança e no comportamento materno. Segundo Helen Fisher[8] a ocitocina está associada ao sistema de vinculação nos mamíferos, tendo provavelmente um importante papel na formação do apego. 
Sabe-se agora que o contato entre seres humanos e cães pode envolver uma variação nos níveis de ocitocina, um indício claro de que o relacionamento pode envolver uma forma de apego. Por exemplo, a concentração de ocitocina em humanos e cães aumenta após interagirem[9]. Um grupo de pesquisadores japoneses se interessou em saber se o sistema neuroendocrinológico humano é sensível ao contato com cães e, em especial, se a concentração de ocitocina na urina dos donos se altera em resposta ao olhar de seus cães[10]. O olhar é um sinal de apego entre seres humanos, mas também ele é usado no contato entre donos e os seus cães. Será que também neste caso representa apego? 
Nesse estudo dois grupos de pessoas foram comparados, em um dos grupos os donos eram expostos a uma longa duração do olhar de seus cães (LD = Longa Duração); e no outro, os donos tiveram pouca exposição ao olhar de seus cães (CD=Curta Duração). Verificou-se que o aumento na duração do olhar do cão estava relacionado a um aumento significativo da concentração de ocitocina urinária nas pessoas (LD > CD). Este resultado indica de forma sugestiva que existe um vínculo de apego entre donos e cães e que este decorre de processos fisiológicos semelhantes aos que atuam na relação entre pessoas e na relação entre animais da mesma espécie. Sinais de carinho, como o olhar, podem mexer mais conosco do que pensamos, mesmo quando se trata do olhar de nosso animal de estimação. 
Embora o apego entre cão e dono deva ser visto como uma característica positiva dessa relação, em alguns casos o excesso pode se transformar em problemas comportamentais indesejáveis como, por exemplo, a síndrome de ansiedade de separação[11]. Essa síndrome acarreta um conjunto de distúrbios comportamentais quando os cães são afastados fisicamente da sua figura de apego, seus donos. São vários os comportamentos disfuncionais que os cães podem apresentar: comportamentos destrutivos, vocalização excessiva, defecação e micção inapropriadas e depressão. Essa hipervinculação pode ser facilmente identificada em cães que seguem seus donos dentro da própria casa para todos os cômodos e muitas vezes o cão demonstra-se ansioso mesmo quando a separação é momentânea dentro da própria casa. É importante cuidar para que essa hipervinculação seja evitada e para que essa relação traga somente benefícios para ambas as espécies.
Os mecanismos de criação de vínculo e apego têm uma importante função em espécies sociais, fortalecem a atração e união entre os membros do grupo. Para nós, seres humanos, o apego entre mãe e filho tem ainda uma função de sobrevivência para a criança, e não é diferente para o cão com seu dono. É admirável observar como duas espécies diferentes são capazes de formar relações de vínculo tão fortes entre si, e o apego estabelecido entre o cão e seu dono se dá nos dois sentidos, o que explica a grande importância dos cães nas nossas vidas e porque sentimos que eles fazem parte da nossa família. 


REFERÊNCIAS
1. Bowlby, J. 1984. Apego. V. 1. São Paulo: Martins Fontes.
2. Ainsworth, M.D.S. & Bell, S.M. (1970). Attachment, exploration, and separation: illustrated by the behavior of one-year-olds in a strange situation.— Child Devel. 41, p. 49-67.
3. Topál, J., Miklási, A ., Dóka, A. & Csányi, V. (1998). Attachment behavior in dogs (Canis familiaris): a new application of Ainsworth’s (1969) strange situation test. Journal of Comparative Psychology, 112, 219–229.
4. Prato-Previde, E., Custance, D.M., Spiezio, C., and Sabatini, F. (2003). Is the Dog-Human relationship na attachment bond? Na observational study using Ainsworth’s Strange Situation. , Behaviour 140, 225-254
5. Gácsi, M. et al. 2001. Attachment behavior of adult dogs (Canis familiaris) living at rescue centers: forming new bonds. Journal of comparative psychology, 115, 423-431.
6. Topál, J. et al. 2005. Attachment to humans: a comparative study on hand-reared wolves and differently socialized dog puppies. Animal behavior, 70, 1367-1375.
7. Barker, S.B., Knisely, J.S., McCain, N.L., Best, A.M., (2005). Measuring stress and immune response in healthcare professionals following interaction with a therapy dog: a pilot study. Psychol. Rep. 96, 713–729.
8. Fisher. H. E. (1998). The attachment system is associated primarily with the peptides, vasopressin, and oxytocin. Human Nature Volume 9, Number 1.
9. Odendaal, J.S.J., Meintjes, R.A. (2003). Neurophysiological correlates of affiliative behaviour between humans and dogs. Vet. J. 165, 296–301.
10. Nagasawa. M., Kikusui, T., Onaka, T. and Ohta, M. (2009). Dog's gaze at its owner increases owner's urinary oxytocin during social interaction. Hormones and Behavior, 55, 434–441.
11. Soares, G.M., Telhado, J. e Paixão, R.L. (2009) Construção e validação de um questionário para identificação da Síndrome de Ansiedade de Separação em cães domésticos. Ciência Rural, Santa Maria, v.39, n.3, p.778-784.