Voltar

Faz bem para o ser humano ter um cão ao seu lado

Carine Savalli; Maria Mascarenhas Brandão; César Ades

“Faz bem para o ser humano ter um cão ao seu lado”: esta idéia não é recente, e tem recebido atenção especial da ciência. Pode ser que desde os primórdios da associação entre o lobo e o ser humano, benefícios já existissem para ambas as espécies e tenham sido a origem da domesticação. Os lobos aproveitavam os restos de alimento em assentamentos humanos e assim, estabeleciam um contato de proximidade que era tolerado. Em troca, os animais podiam ser muito úteis, sinalizando por latidos a aproximação de predadores, participando da caça e talvez, desde então, estabelecendo laços com as pessoas, laços que são constatados em povoados indígenas atuais.  
Não é de se estranhar que os cães tenham adquirido um papel relevante na nossa cultura, a partir de sua utilidade e de sua capacidade em associar-se conosco. Hoje em dia, os cães contribuem de várias maneiras em nossas vidas: trabalham como farejadores, cães-guias de cego, cães de guarda, cães militares, cães pastores e em outras tarefas ainda. Mas a característica mais marcante da presença dos cães nas nossas vidas é o seu uso como animais de estimação, um uso que transcende o aspecto utilitário e que se baseia em necessidades psicológicas de afeto. Sabe o senso comum que a interação com cães e outros animais de companhia pode ser muito prazerosa e gratificante e que pode proporcionar bem-estar. Pesquisadores têm, cada vez mais (a literatura a respeito é atualmente muito grande) investigado a questão do bem-estar que cães e outros animais de estimação podem trazer ao ser humano não só no aspecto psicológico, mas também ao nível das reações fisiológicas e da saúde. O assunto sai, assim, da intuição e do bom-senso para se constituir em tema relevante para a pesquisa científica.
Estudos indicam, por exemplo, benefícios do contato com cães ao nosso sistema imunológico. Foram comparados[1] bebês expostos a cães com outros bebês não expostos, e verificou-se que as interleucinas 10 e 13 (IL-10 e IL-13), citocinas anti-inflamatórias e imunossupressoras que desempenham um importante papel na regulação do sistema imunológico e das alergias, aumentam significativamente em bebês de 1 ano de idade quando expostos precocemente a um cão. Parece que a exposição de bebês a cães torna-os menos suscetíveis a alergias e dermatites tópicas.
Mostrou-se também que a exposição do bebê a um cão reduz rinites alérgicas aos 4 anos de idade[2] e aos 6 a 7 anos reduz a imunoglobulina E, um anticorpo que quando em altas concentrações sugere um processo alérgico[4]. Isso não significa que o contato corporal com cães seja sempre benéfico ou isento de possíveis efeitos negativos para a saúde, mas esses resultados lançam uma discussão mais equilibrada sobre prós e contras de se ter um cão. 
Em outra interessante pesquisa estudou-se o efeito de acariciar um cão sobre os níveis de imunoglobulina A, um anticorpo presente nas mucosas que tem por efeito evitar a invasão viral ou bacteriana sendo, portanto, importante na prevenção de várias patologias[5]. Foram comparados três grupos: (1) indivíduos que acariciaram um cão durante 18 minutos, (2) indivíduos que acariciaram um boneco de cão (feito de pano) pela mesma duração e (3) indivíduos que simplesmente sentavam-se confortavelmente em um sofá pela mesma duração. Somente os indivíduos que acariciaram o cão verdadeiro apresentaram aumento da imunoglobulina A na saliva. Este resultado se deve provavelmente ao relaxamento que o contato com o cão através de carícia proporciona. Sabe-se que atividades de relaxamento promovem de fato um aumento da imunoglobulina A tornando o corpo mais forte contra invasões de vírus e bactérias. Parece, portanto, que a exposição a animais de estimação, em especial o cão, promove um sistema imunológico mais fortalecido.
O cuidado a animais de estimação pode ter efeitos também sobre a saúde coronariana. Registraram-se as taxas de sobrevivência no ano posterior a um infarto agudo do miocárdio em donos de cães, gatos, outros animais de estimação e em pessoas que não possuíam bichos, todos selecionados dentre pacientes participantes do projeto “Cardiac Arrhythmia Supression Trial” (CAST), no qual se aplicavam testes farmacológicos da supressão da arritmia[6]. Foram avaliadas características fisiológicas (fração de ejeção ventricular, presença de isquemia do miocárdio, falência cardíaca congestiva, classificação cardiovascular, número de infartos do miocárdio prévios, presença de diabetes mellitus e histórico médico familiar) e características psicológicas e psicossociais (questionário de suporte social [SSQ6], escala de avaliação de reajustamento social, inventário de traços de ansiedade, escala de auto-avaliação para depressão, exame de atividades Jenkins e escala de expressão de raiva, além de um exame do apego na posse de animais de estimação). A posse de um cão, assim como o suporte social, contribuiu significativamente para a sobrevivência dos pacientes pelo menos no ano seguinte ao infarto. Não foram encontrados efeitos semelhantes em donos de gatos ou de outros animais. Não houve, contudo, diferenças significativas entre os vários grupos quanto aos resultados dos testes fisiológicos.
Em outra pesquisa foram estudadas pessoas que sofriam de hipertensão arterial e tinham empregos geradores de estresse[7]. Foram avaliados 48 sujeitos hipertensos quanto aos níveis de pressão sistólica, diastólica e frequência cardíaca em três situações, uma de descanso, e duas potencialmente geradoras de estresse: fazer contas mentalmente e falar em público. Após as medidas de linha de base, os sujeitos foram divididos em dois grupos: os do grupo controle tomaram apenas lisinopril (um medicamento); os do grupo experimental, além de usarem o lisinopril, adquiriram também um cão ou um gato. Na reavaliação dos indivíduos, feita seis meses depois, verificou-se que as taxas de pressão sistólica, diastólica, frequência cardíaca diminuíram para ambos os grupos. Entretanto, nas situações geradoras de estresse o grupo experimental apresentou essas taxas significativamente menores que o grupo controle, ou seja, a resposta ao estresse foi melhor para os donos de cães. Houve também diferenças entre os grupos nas tarefas de fazer contas: enquanto os indivíduos do grupo de controle permaneciam com taxas de acertos próximos aos da linha de base, os do grupo experimental aumentaram significativamente suas taxas de acertos, depois de um período de contato com animais de estimação. Parte desse bom resultado do grupo experimental pode provir do suporte social que as pessoas recebem quando estão com animais de estimação, suporte que é efetivo em diminuir níveis de estresse. É interessante notar que na palestra de encerramento do experimento, com o tema “como seu animal de estimação mudou sua vida?”, a participação dos sujeitos foi maciça e todos os donos de cães e quase todos os donos de gatos levaram consigo seus bichinhos à palestra. 
Como será que muda a pressão sanguínea de indivíduos saudáveis quando expostos à diferentes tipos de suporte social (presença de um animal de estimação, da esposa ou de um amigo)? Em outro estudo foram medidos os níveis de pressão sistólica, diastólica e frequência cardíaca em situações de descanso, durante tarefas de matemática (consideradas de enfrentamento ativo de estresse) e em uma tarefa de colocar as mãos em água gelada por dois minutos (considerada de enfrentamento passivo de estresse)[8]. O grupo experimental era testado quando sozinho, na presença da esposa, na presença do animal de estimação (cão ou gato) e na presença conjunta da esposa e do animal. No caso do grupo controle, um amigo substituía o animal de estimação nos testes. Verificou-se que a presença dos animais de estimação amenizava as reações ao estresse agudo e diminuía a percepção do estresse: donos de animais de estimação demonstraram taxas significativamente menores de pressão sistólica, diastólica e frequência cardíaca durante o descanso e na resolução do problema de matemática. Tanto para os indivíduos do grupo experimental como para os do grupo controle, a maior manifestação de estresse aconteceu em companhia das esposas. Já a menor manifestação de estresse ocorreu na situação solitária para o grupo controle e em presença do animal de estimação para o grupo experimental. Os donos de animais de estimação foram mais rápidos e tiveram menos erros nas tarefas matemática quando estavam em companhia de seus animais.
Em um estudo longitudinal acompanhou-se indivíduos por um período 10 meses após adotarem cães pela primeira vez[9]. Estes donos recentes foram comparados a um grupo controle de indivíduos (sem animais de estimação). Os indivíduos preenchiam questionários sobre: (1) 20 pequenos problemas de saúde recorrentes, nos meses anteriores à adoção do animal, como dores de cabeça, dores nas juntas, nas costas, tosse persistente, constipação, problemas estomacais, resfriados, gripes, etc; (2) a duração aproximada de  momentos de lazer e caminhadas durante as 2 semanas anteriores à adoção e (3) saúde psicólogica (30-item General Health Questionnaire – GHQ-30) em quatro oportunidades: no momento da adoção, 1, 6 e 10 meses depois da adoção. Somente o grupo que tinha adotado cães apresentou diminuição significativa dos problemas menores de saúde, e este efeito persistiu até o final do estudo. Este grupo teve redução nos escores do GHQ-30 indicando uma melhora do estado psicológico e um aumento na duração de caminhadas e momentos de lazer. O aumento de exercícios físicos, em especial, tem implicações positivas para a saúde – principalmente cardiovascular – a longo prazo.
Sabe-se que o hábito de caminhar traz benefícios físicos e ter um cão é uma oportunidade de aumentar a frequência e duração de caminhadas. Para mostrar isso uma pesquisa comparou os níveis de atividades físicas e hábitos de caminhar em dois grupos de pessoas, os donos de cães e os que não possuem cães[10]. Os resultados revelaram que os donos de cães passam um tempo significativamente maior caminhando, mesmo sendo esse hábito produto de uma obrigação que os cães impõem. Sugere-se então que ter um cão é uma forma de promover mais atividades físicas e consequentemente mais saúde, já que a falta de exercícios físicos está ligada à muitos problemas de saúde.
Os cães, além de companheiros, parecem ser também catalizadores sociais durante os passeios e ajudam as pessoas a se integrarem socialmente. Pessoas que passeiam com seus cães tem mais chance de iniciar conversas com outras pessoas. Um interessante estudo feito em lugares públicos e parques mostrou que os cães promovem interações e conversas entre estranhos e facilitam o estabelecimento da confiança[11]. Eles facilitam o contato social entre vizinhos, o que contribui com a criação de um sentido de comunidade, auxiliando a formar uma rede de apoio e reciprocidade. Portanto, ter um cão também aumenta as oportunidades de interação social.
São muitas as maneiras em que o convívio com um cão pode trazer impactos positivos no bem-estar e na saúde física e mental do ser humano. Os resultados expostos aqui, tomados como um todo, sugerem que ter um cão pode ter um valor profilático e terapêutico para o ser humano, tanto em aspectos de saúde como de bem estar psicológico.
Bibliografia
[1] Gern, J. E. et al. (2004). Effects of dog ownership and genotype on immune development and atopy in infancy. Journal Allergy Clin. Immunol.,113:307-14.
[2] Nafstad P., Magnus P., Gaarder P.I., Jaakkola J.J. (2001). Exposure to pets and atopy-related diseases in the first 4 years of life. Allergy, 56:307-12.
[3] Ownby D.R., Johnson C.C., Peterson E.L. (2002). Exposure to dogs and cats in the first year of life and risk of allergic sensitization at 6 to 7 years of age. JAMA;288:963-72.
[5] Charnetski C. J., Riggers S., Brennan, F. (2004) Effects of petting a dog on imune system function. Psychological Reports, 95, 1087-1091.
[6] Friedmann, E. & Thomas, S. (1995) Pet ownership, social support, and one-year survival after acute myocardial infarction in the Cardiac Arrhythmia Suppression Trial (CAST). The american journal of cardiology, 76, 1213-1217.
[7] Allen, K., Shykoff, B. & Izzo Jr., J. (2001) Pet ownership, but not ACE inhibitor therapy, blunts home blood pressure responses to mental stress. Hypertension, 38, 815-820.
[8] Allen, K., Blascovich, J. & Mendes, W. (2002) Cardiovascular reactivity and the presence of pets, friends, and spouses: the truth about cats and dogs. Psychosomatic medicine, 64, 727-739.
[9] Serpell, J. (1991). Beneficial effects of pet ownership on some aspects  of human health and behaviour. Journal of the Royal Society Medicine, 84, 717-720.
[10] Brown S.G., Rhodes, R.E. (2006). Relationships Among Dog Ownership and Leisure-Time Walking in Western Canadian Adults. American Journal of Preventive Medicine 30(2):131–136.
[11] Wood L., Giles-Corti B. and Bulsara M. (2005) The pet connection: Pets as a conduit for social capital? Social Science & Medicine, 61, 1159–1173